Apólogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro - lá embaixo uma porção de vacas pastando. O boizinho, incontido:

- Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez?

E o boizão, tranqüilamente:

- Não: vamos descer devagar, e pegar todas.

Mais vale um pássaro na mão. A Academia Mineira, há tempos, pagava um  jeton ridículo: duzentos cruzeiros - antigos, é lógico. Um dos imortais, indignado, discursava o seu protesto:

- Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou quinhentos cruzeiros, ou nada!

Ao que um colega prudentemente aparteou:

- Péra lá: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo.
Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado - prudência e capitalização.

- Meu filho, ouça bem o seu pai: se sair à rua, leve o guarda-chuva, mas não leve dinheiro. Se levar, não entre em lugar nenhum. Se entrar, não faça despesas. Se fizer, não puxe a carteira. Se puxar, não pague. Se pagar, pague somente a sua.

Mas todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmos, lingüiça frita com farofa. De sobremesa, goiabada cascão com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com requeijão. Aceita um pão de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe uma broinha de fubá? Não, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas prefiro bolinho de januária, e pronto: estou sastisfeito...

Falar de Minas, trem danado, sô. Vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações antigas, fluindo como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Prefiro estancá-las no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu enigma: decifra-me, ou devoro-te.

Prefiro ser devorado.
Fernando Sabino
Extraído do livro "As Melhores Crônicas de Fernando Sabino", Editora Record, Rio de Janeiro/São Paulo, 2003, pág. 136.